Terecô

A Magia dos Tambores
da Mata Codoense

Terecô é a denominação dada à religião afro-brasileira tradicional de Codó – uma das principais cidades maranhenses, localizada na zona do cerrado, na bacia do rio Itapecuru, a mais de 300 km de São Luís.

É também conhecido por “Encantaria de Barba Soêra” ou Bárbara Soeira (entidade sincretizada com Santa Bárbara) e por Tambor da Mata, ou simplesmente Mata (em alusão à sua origem rural ou para diferençá-lo da Mina surgida na capital).

Embora o Terecô tenha se originado de práticas religiosas de escravos das fazendas de algodão de Codó e de suas redondezas, sua matriz africana é ainda pouco conhecida. Apesar de exibir elementos jeje e alguns nagô, sua identidade é mais afirmada em relação à cultura banto (angola, cambinda) e sua língua ritual é, principalmente, o português.

Geralmente no Terecô os pais e mães de santo são também curadores, embora existam na região “raizeiros”, preparadores de “mezinhas”, que são ali mais conhecidos por “cientistas” (doutores do mato) do que por terecozeiros, macumbeiros ou umbandistas.

Em Codó, tanto no passado como na atualidade, alguns terecozeiros ficaram também famosos realizando “trabalhos de magia” por solicitação de clientes ávidos de vingança, de políticos, ou de outras pessoas dispostas a pagar por eles elevadas somas, o que lhe valeu a fama de “terra do feitiço”. Afirma-se que nesses “trabalhos” e práticas terapêuticas os terecozeiros associam à sabedoria herdada de velhos africanos, conhecimentos indígenas, práticas do catimbó, da feitiçaria europeia e que também se apoiam no Tambor de Mina, na Umbanda e na Quimbanda.

No Terecô, como no Tambor de Mina, as entidades espirituais são organizadas em famílias sendo a maior e mais importante a da controvertida entidade espiritual Légua Boji Boá da Trindade, apresentado em Codó como “príncipe guerreiro”, filho de Dom Pedro Angassu (conhecido em São Luís como o “representante de Xangô na Mata”) e como “preto velho angolano”. Légua Boji é também apresentado em terreiros da capital maranhense como vodum cambinda (Casa das Minas-Jeje), ou como um misto de Légba (Exu) e do vodum jeje Poliboji.

Embora no Terecô sejam cultuados voduns africanos jeje-nagô (como Averequete, Sobô, Ewá), muito conhecido no Tambor de Mina da capital, os transes ocorrem principalmente com “voduns da Mata”. É bom lembrar que, não obstante ser o Terecô um culto afro-brasileiro, nele as práticas curativas são muito desenvolvidas.

Tudo indica que o Terecô se organizou primeiro em povoados negros de Codó e de municípios vizinhos, mas só se tornou mais conhecido depois que se desenvolveu na cidade de Codó. Segundo Costa Eduardo, em 1943, no povoado de Santo Antônio dos Pretos, o Terecô era mais conhecido por Pajé ou por Brinquedo de Santa Bárbara.

Durante algum tempo acreditamos que a palavra Terecô poderia ter se originado da imitação do som dos tambores da Mata (“terêcô, terêcô, terêcô”), em virtude de não havermos encontramos nem Codó e nem em São Luís uma definição etimológica paralela. Mais recentemente a antropóloga e linguista baiana Yeda Pessoa de Castro esclareceu que ela pode ser de origem banto e ter sido derivada de “intelêkô” e ter o mesmo significado que Candomblé.

A memória dos codoenses registra uma fase inicial do Terecô em que os negros das fazendas de algodão do Município de Codó realizavam seus rituais religiosos na “mata do coco babaçu”, longe da vista dos senhores, em seguida, após a abolição da escravatura, quando os negros da cidade realizavam seus rituais às margens da Lagoa do Pajeleiro, às escondidas da polícia, com quem entravam frequentemente em conflito.

Contudo, analisando-se os relatórios da Missão Folclórica, criada por Mário de Andrade, que percorreu o Norte e Nordeste no final da década de 30, a “linha de Codó” já marcava sua presença em terreiros de Mina de São Luís (Maximiana), de Belém (Sátiro), e que surgiu no Pará com o nome Babassuê.

Embora muito temidas, as entidades do Terecô são depositárias de grande confiança e encaradas como defensoras pelos terecozeiros.

Mundicarno Ferretti | Antropóloga